Número exato de palavras: 6.431
Pseudônimo da autora: Katharynny Gabriella
Nome da História: A Escolhida
A Escolhida:
O
vento ecoava pelo vale, soprando o cabelo ruivo de Teri sobre o rosto, de olhos
fechados,
deitada sobre a grama macia, ela podia sentir a luz forte do sol sobre os seus
olhos
e sua pele, de tão imersa em seu momento sonhador nada mais no mundo parecia
importar-lhe
além da calma que aquele instante lhe proporcionava, e não era de se
espantar
uma vez que seus momentos de paz se tornaram raros desde que ela foi vendida
para
a senhora Belthernan. Não era culpa dos seus pais, ela sabia e não sentia por
eles
nenhum
tipo de rancor, quem imaginava que a mãe engravidaria de novo em uma casa
de
seis filhos quando o permitido era seis, pessoas de castas como a dela não
tinham
muita
escolha e sacrifícios eram preciso quando a vida de um colocava em risco a vida
de
todos.
A senhora Belthernan não era de um todo ruim, afinal mesmo lembrando a Teri
todos
os dias que ela era feia, inútil e que devia a ela sua vida, pelo menos ela não
batia
na
garota, como acontecia com a sua única amiga Vivian, que fora vendida para a
senhora
Galahan.
Abrindo
os olhos, Teri sentou na grama e olhou em volta. As flores que cresciam
como
um tapete branco ao longe onde seus olhos enxergavam, o verde vibrante das
árvores
que se amontoavam na floresta, bem além do tapete de flores brancas, dali, do
topo
da colina do vale verde, a garota imaginava uma vida melhor, um bravo e lindo
príncipe
que a salvaria de seu destino vazio e solitário, mas a verdade que doía em seu
peito
era que provavelmente o príncipe Krishnan já estava noivo antes mesmo de deixar
o
berço, e além do mais, como um príncipe olharia para ela? Uma plebeia e
pior: uma
plebeia
vendida pelos pais. Nos contos de fada soavam bonitinho, mas na vida
real os
príncipes
não se casavam com plebeias, se ela tivesse sorte a senhora Belthernan a
casaria
com
um bom homem, talvez um lenhador ou o filho do padeiro, afinal, não seria assim
tão
ruim, não é? Com um suspiro desanimado, Teri levantou e deu uma última olhada
para
o vale, a folga havia acabado e sua mãe adotiva ficaria furiosa se ela
não aparecesse a
tempo
de fazer o jantar, por dentro, Teri implorou para que ela ainda estivesse na
tecelaria
ou a garota já podia visualizar sua expressão carrancuda e os gritos ribombando
as
paredes de sua cabeça.
Ela
caminhava lentamente pela trilha de volta para a estrada que levaria ao
vilarejo
onde morava agora. Os pais viviam no campo com os outros irmãos dela e no
fundo
de sua mente ela se perguntava se eles haviam vendido mais algum deles. Em
parte
ela se sentia feliz, além de ajudar a família, pois o dinheiro alimentaria seus
irmãos
por
um tempo, ela os poupara de quebrar a lei. As famílias não podiam ter mais que
seis
filhos,
pois, com as dificuldades em pagar os impostos, grande parte da população de
Rivervaile
estava em estado de miséria. Para evitar isso, o rei Edward decretara a ordem
de
controle da natalidade ordenando que, no caso de uma nova gravidez, um dos
filhos
deveria
ser vendido para um comerciante viúvo, solteiro ou com a família controlada,
para
cuidar da nova criança que viria a ser um peso menor na responsabilidade dos
pais.
Do
contrário, ou um dos filhos “sobrando” seria morto ou a família inteira seria
presa e
usada
como escrava nas lavouras do oeste e esse era um destino que ninguém almejava.
Enquanto
caminhava absorta em seus pensamentos, alheia inclusive à beleza que a
rodeava,
Teri imaginava seu futuro incerto a partir daquele momento, fazia dez que ela
morava
com a senhora Belthernan, tinha sido levada aos sete anos, não estava
reclamando
nem nada, tivera sorte, mas sentia saudade da família e odiava não poder ter
controle
sobre sua vida. Reprimiu uma lágrima e ignorou o nó que se formava em sua
cabeça
quando sentiu o corpo colidir com algo forte, tudo aconteceu tão depressa que,
quando
ela percebeu, estava caída no chão com as costas doendo e suja de lama
enquanto
um homem alto a observava, curioso.
“Maldição!
– Ela exclamou irritada olhando o vestido sujo de lama. – Porque não olha
aonde
anda?”
“Peço
que me perdoe, senhorita. – Ele estendeu a mão para ajuda-la a se por de pé. –
Eu
vinha
de tal modo absorto em pensamentos que não a vi.”
“Ser
invisível não é nenhuma novidade pra mim. – Ela sussurrou mais para si mesma
que
para o estranho. Ouviu o som de uma risada e ergueu o olhar para ele, furiosa. –
Qual
a graça?”