domingo, 15 de junho de 2014

Resultado - Primeiro Lugar

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E finalmente, o primeiro lugar.
Apenas como comentário, está foi a história que nos cativou! - A todas nós. - por ser diferente e completamente viciante!
Número exato de palavras: 4.089
Pseudônimo da autora: Toph Bei Fong
Nome da História: Os Olhos de Amber

Os Olhos de Amber
Quando a conheci você não passava de uma criança. Tinha cabelos claros em tons de loiro e castanho, era pequena e de braços finos. Sempre parecera muito frágil e suas madeixas claras e seus olhos caramelos apenas aprimoravam a ideia de boneca. Você era uma boneca, de porcelana ou de vidro, não sei ao certo a diferença pois era você quem gostava delas. Apenas lembro que sua pele estava corada e seus cachos se presos com uma tiara azul. Naquele dia de final de maio, você sorriu e andou na minha direção.
Nunca entendi bem o porquê.
Havia tanta gente em volta, apressadas, passeando. Havia livros aos monte e estantes e estantes, mas de alguma forma você me enxergou atrás do balcão e veio em minha direção, perguntando as horas e onde poderia encontrar um segurança. Havia se perdido dos seus pais, me lembro bem, lembro também que estava nervosa e que o segurança não notou o medo em seus olhos, mas eu notei, e agora me pergunto como pude. Sempre fui desligado, lembra-se? Mas de alguma forma você surgiu lá e me atraiu atenção, e creio que o motivo sempre seja uma incógnita em minha existência.
O segurança a deixou no lado do balcão e foi até o auto falante do lugar, informando a garota perdida, chamando o nome de seus pais e esclarecendo sua localização. Isso pareceu ter acalmado você, e me acalmou também, porque havia finalmente descoberto seu nome, que foi repetido três vezes no auto falante da feira.
Uma feira de livros. Um dia de Maio. Uma garota chamada Amber perdida.
E Amber era um nome que lhe cabia bem, pois sempre fostes como uma pedra preciosa, e seus cabelos claros sempre combinaram com teus olhos cor de âmbar, logo, não conseguia imaginar nome mais belo para você. Amber era perfeito, você era também.
Suas unhas já estavam todas ruídas por causa do sentimento nervoso que aos poucos lhe consumia, então eu, tentando acalmá-la, puxei conversa, e, graças à Deus — ou não — você curvou os lábios e me respondeu.
Acho que tinhas 12 naquela época. Sim, sim, definitivamente tinha 12, então acho que eu tinha 16, perto aos 17. No entanto, ali ao seu lado buscando distraí-la, senti-me bem mais velho do que realmente era, como um adulto consolando uma irmã mais nova após sua boneca se quebrar — ou talvez eu fosse a criança e tu fosses minha boneca, a diferença é que eu jamais permitiria que se quebrasse.
Foi uma conversa bem curta, mas para mim havia sido o suficiente. Seus pais chegaram um pouco depois de nossa conversa e o alívio atravessou seu peito visivelmente. Tu viraste de costa para mim, acenou com um sorriso doce inocente — agora penso no quanto gostaria de poder congelar esse sorriso. Congelar e guardá-lo num lugar onde apenas eu teria acesso — e agarrou firme ao peito sua sacola recheada de livros, caminhando e logo sumindo com seus pais no meio das pessoas.
Aquele foi o primeiro contato. Ali, em meu pequeno emprego vendendo livros e juntando dinheiro para faculdade. Ali, em uma comum convenção literária.
Na segunda vez que a vi novamente, foi em uma terça-feira fria, no fim de outono. Creio que tinha se passado pouco menos de três anos desde nosso primeiro contato e, admito com pesar, que sequer me lembrava de ti, assim como sabia que tu sequer lembrarias da minha face.
Estava em uma cafeteria no centro, tomando goles curtos de um Expresso Macchiato, enquanto temperava o amargor com uma torta de chocolate demasiada doce. Você entrou pela porta da frente e os sinos soaram, mas ninguém parecia ter notado sua presença. Eu não notei, e sinto em dizer isso, mas naquele dia e naquele momento estava muito ocupado e concentrado em minhas breves provas do curso de literatura. Agora percebo que deveria mesmo ter levantado o olhar e analisado aquele momento, estudado seu pedido e observado seus passos.
No entanto só fui notá-la quando você estava de pé em frente à minha mesa, perguntando se poderia sentar-se na cadeira desocupada à frente.
Aquele era um péssimo dia para encontrá-la uma segunda vez, querida. Estava imprestável naquela manhã, com olheiras fundas e cinzas, o cabelo por pentear, as roupas por passar e a cara de quem madrugou a noite inteira e que nem mesmo três cafés expressos eram capazes de despertar. Mas ainda assim, você não pareceu realmente ligar, sorriu e sentou na minha frente com seu copo branco cheio de cappuccino, arrastando os dedos de unhas claras para dentro da mochila e tirando de lá seu bloquinho de notas.
Sim, eu não lembrei de você quando a vi, realmente peço desculpas por isso, mas Deus ou seja lá quem for sabe muito bem que minha situação naquele momento não era das melhores. Você ainda era bela como sempre foi, mesmo que até aquele dia só houvesse a visto uma vez. Seus cabelos pareciam mais claros em seu loiro acastanhado, desta vez soltos e sem prendas, sua pele estava mais com leves tons de bronze e seu rosto ainda tinha aqueles velhos traços de boneca de vidro, tão frágil e quebrável, enquanto os óculos grandes apoiavam-se em seu nariz adorável — você toda era adorável, digo logo.
E então, vi seus olhos — e eles me viram também — e aquele velho tom de caramelo e avelã, uma cor indescritível, que logo mostrara-se cor de âmbar com traços leves de dourado e verde. Seus olhos de âmbar, Amber.
Foi só ali que lhe reconheci — engraçado como seus olhos eram a característica fixa na minha memória, tão belos que nem mesmo o malicioso tempo ousou nublá-los. — e mesmo que sem querer um “Amber” fraco escapou da minha boca como uma palavra de vida própria que achou uma boa ideia escapar dos meus pensamentos. E quando disse seu nome você ergueu o rosto para mim e perguntou de onde me conhecia.
Não tardei a dar sua resposta e só comentei sobre nosso curto encontro, três anos atrás. Naquele dia você tinha 15 anos e havia começado o ensino médio se bem me lembro, era tão jovem, minha querida, e acho que eu também era, mesmo sem notar. Afinal eu não tinha muito mais que 18, talvez 19 e estava apenas começando meu caminho rumo aos empregos e cursos.
Tu sorriste para mim e pareceu recordar-se, mesmo que minimamente, daquele dia comum de maio e me cumprimentou mesmo não lembrando meu nome. Bem, eu lembrava o seu, e acho que isso era o suficiente.
Depois de uma conversa um pouco mais longa do que nossa última, você pôs uma nota pequena sobre a mesa e se despediu mais uma vez, desta vez com um aperto de mão e um rápido abraço — ainda lembro do cheiro que não parecia ser perfume. Era algo entre hidratante de uva e sabonete, não muito descritível, apenas sei e recordo-me que era o cheiro do Éden, ou do que eu gostaria que fosse.
E aquele fora o segundo contanto. Em uma cafeteria qualquer do centro, enquanto eu me distraía em meio a tantos e tantos papéis do curso. E cheiro, seu cheiro.
Depois disso as coisas foram mais depressa do que antes. Passaram-se quatro anos, talvez cinco se a memória não falha.  Cinco anos é um longo tempo para coisas acontecerem: havia me formado e terminado meu curso de literatura, tinha 24 anos e agora já trabalhava em uma universidade popular e comum.
É tão estranho, mas as memórias são bem vivas a respeito daquele dia.
Era setembro, começo de aulas, dia 6, ano de 1994, entrei na sala e cumprimentei meus novos alunos, joguei minha bolsa sobre uma cadeira próxima e bati as mãos em uma palma silenciosa, apresentando meu nome e minha matéria.
Você estava sentada não muito atrás e olhava atentamente para mim, acho que havia me reconhecido — ou espero que sim, afinal sua memória sempre foi bem melhor que a minha —, mas havia tantos rostos ali, que admito mais uma vez com um pesar grande no peito, que não enxerguei você, escondida em seu casaco marrom e com seus belos olhos escondidos por trás de uma armação de óculos.
Noto agora como em todas as vezes você passava despercebida por mim, incrível isso, mas acho que é algo humano, nunca enxergamos no ambiente o que realmente importa.
E tu importavas para mim mais do que qualquer coisa no mundo, você era meu mundo, era meu bálsamo, minha perdição, minha bela boneca e minha pedra preciosa de âmbar.
As coisas seguiram mais em ordem depois disso: você me cumprimentou após a aula com seu sorriso doce de sempre, estava mais adulta, mais alta e ainda mais bela. Seus olhos naquele tom tão indescritível e belo continuavam brilhosos e vivos — embora aquelas costumeiras olheiras de estudante houvessem se acomodado sob eles. Lembrei-me então do nosso segundo encontro, cinco anos atrás, em que me encontrava na mesma situação estudantil que você — e os cabelos presos em um rabo de cavalo mal feito e desarrumado ao ponto de parecer feio em uma pessoa normal, mas não em você.
Naquela época nunca imaginaria o quanto aquele dia seria importante, sempre fui tão desatento, que quando me dei conta estava em uma cadeira provando vários sabores de diferentes tortas com você, porque você as adorava assim como adorava café, assim como amava o cheiro e o sabor de uva.
Uva, nunca compreendi sua obsessão pela fruta. Seu hidratante era de uva, sua geladeira era lotada de sucos de uva de garrafa e caixa, suas prateleiras se preenchiam por geleia de uva, suas unhas tinham desenho de uva — e se me lembro bem, você possuía uma camisa branca com um cacho de uvas roxas — e você simplesmente delirava em uma torta com recheio de uva.
Acho que se eu lhe desse um caminhão de uvas, você se casaria comigo mesmo sem me conhecer.
Talvez devesse ter feito isso mesmo.
Fora uma conversa divertida e agradável. Você, assim como eu, gostava de ler — talvez não tanto quanto eu, mas conhecia suficientemente bem um pouco de tudo — e isso nos rendeu grandes discussões e debates que sempre terminavam em risadas e altos níveis de intimidade.
Acabamos por todo dia sair juntos da universidade. Todos os dias durante os quatro meses que se seguiram, e não demorou muito até o melhor de tudo acontecer.
Nesse dia resolvemos andar ao parque e tu decidiste correr por entre as folhas vermelhas que preenchiam o chão. Acho que naquela época já havia me tocado o quão apaixonado eu estava por você, pois corri atrás de ti também e consegui derrubá-la no chão. Caímos juntos na grama seca, você sorria, eu sorria, então tu resolveste inclinar-se para o lado e tocar meus lábios com os teus.
Aquela realmente havia sido a melhor sensação de todas, aliás, teus lábios não eram macios como descrevem os livros, era pele, carne, tudo com um leve sabor de uva —  e tudo era maravilhoso, pois você era maravilhosa e as voltas e revoltas que provocavas em meu estômago eram maravilhosas — e adocicado pelo tom doce de seu belo par de olhos.
Deus, você era linda! Nunca um dia cansarei de repetir isso, jamais. Você era linda, linda em todos os aspectos mesmo que apenas fosse tão bela aos meus olhos. Eu estava apaixonado, loucamente insano por você — não pela sua beleza dourada, lhe garanto logo, eu amava tudo em você, todo mínimo e ínfimo detalhe, cada traço, cada curva, cada beijo ou toque. Você era tudo, era um mar de sensações berrando por liberdade, era paz, era lazer.
No entanto não era ar, e eu não podia respirá-la para sempre. Às vezes paro para pensar e noto que você talvez seja um veneno radioativo ou uma droga alucinante e viciosa. Pois eu estava viciado em você e aquilo estava mesmo me fazendo mal, talvez se continuasse a viver tanto âmbar teria perdido meu emprego — havia ficado muito aéreo e acho que cumpria meu trabalho direito —. E até hoje não sei se o que se seguiu foi certo ou errado, mas sei que ficamos juntos e que nos amamos por longos 7 meses, até percebemos que os nossos caminhos haviam traçado um rumo de linhas tortas maldosas.
Então nos separamos mais uma vez, desta vez com uma despedida mais apropriada. Ainda hoje acho que sinto o gosto dos seus lábios quando você puxou o colarinho de meu sobretudo e afundou sua boca com gloss de uva na minha. Acho que beijos de despedida conseguem ficar mais presos à memória do que os beijos eventuais, e aquele beijo, marcou-me como um ferro quente marca um cavalo, e, assim como o cavalo, seu beijo marcou em mim a tatuagem invisível de pertence — passei a pertencer a você, mas acho que realmente já pertencia a muito tempo.
Não sei como não chorei naquele dia, talvez estivesse com orgulho do seu sucesso ou com demasiada tristeza me assolando, mas não derramei lágrima alguma quando você entrou no trem e partiu. Tenho certeza que você se lembra que eu corri atrás do trem perto da janela em que você estava, e corri, corri e corri um pouco mais, no entanto o trem já estava muito rápido e não deu mais, então parei.
Parei.
Parei.
Parei, mesmo. Os meses passavam lentos, as horas eram sonolentas e os minutos atrasados. Percebi que a sensação era de que o tempo havia parado, de fato. Talvez houvesse mesmo, ou talvez sempre estivesse parado e só fui notar naquela hora. A rotina me matava aos poucos, e eu ainda era tão novo, certamente não deveria morrer assim — mas tudo permanecia frio e sem cor, um tanto dramático demais e com uma grande dose de melancolia. A verdade era que sua falta era sentida em todos os lugares, a cafeteria era seca e sem diversão, o parque parecia silencioso e pouco agitado, a sala de aula parecia estar aberta em vácuo de palavras, como se o lugar onde você sentava, agora vazio, fosse um grande buraco negro de tão notável.
Sentia falta do seu calor na minha cama, nos fins de semana quando você resolvia dormir lá em casa, naquele apartamento apertado e bagunçado — havia muitas caixas de pizza sob a cama e roupas sujas sob o tapete, e lembro-me que quem as pôs ali fora você, já que “o lugar estava arrumado demais para o apartamento de um homem solteiro”, então lhe disse que já não era mais um homem solteiro e você sorriu, fechou a porta e me empurrou na cama — Havia também muitos potes de geleia de uva na geladeira, pois você fez o favor de enchê-la de coisas sabor uva.
E as geleias ainda estão lá, acho, pois você conseguiu de forma inacreditável me fazer enjoar da fruta, então todos aqueles potes doces permaneceram intactos, como uma lembrança viva do gosto de sua boca e do seu amor por uvas, pois eu era tolo demais para jogá-las fora.
Então um dia, acho que em novembro de 95’, eu decidi que era hora de te ver. Estávamos a quatro meses separados pela distância e eu já não aguentava mais tudo isso, apenas nossas conversas a noite pelo telefone não bastavam. Precisa de você, de sentir seu toque, seu calor, precisava ver seus olhos e beijar seus lábios.
As lembranças eram fortes e você estava em tudo. Minha geladeira estava cheia de geleia de uva. E você estava em tudo.
Então parti em direção a Nova York e peguei um táxi até o lugar onde você fazia seu curso para jornalismo. Acho que tentei muito apagar a imagem que vi naquele dia. Acho que tentei tanto, que cada vez que tentava apagar, mais nítida a imagem se tornava, mais viva, com mais cores e mais resolução.
Era você, Amber. Minha Amber. Minha Amber abraçada a outro cara. E você estava feliz, tão feliz quanto estava quando saíamos após as aulas. Minha Amber dos cabelos loiros escuros, minha Amber dos olhos cor de âmbar. Minha.
E então, percebi que o minha era uma palavra inexistente — e me lembrei que havia dito que nunca deixaria você se quebrar, pois você era minha bela boneca. No entanto, acabei por fazer ainda pior, não te quebrei, mas acabei te perdendo em algum lugar no passado.
Naquele dia eu sequer falei com você, a visão que tive de longe, com seu sorriso e o braço masculino sobre seus ombros foi tudo o que bastou. Eu apenas girei os calcanhares e voltei pelo mesmo percurso até achar um táxi e voltar para o mesmo lugar de antes — aquele velho apartamento que ainda tinha seu perfume e ainda tinha vestígios do que antes foi meu.
Me lembro que me joguei na cama e não me levantei até o amanhecer do outro dia, quando acordei tinha olhos vermelhos e marcas de choro sob os olhos — todo choro que suportei quando você partiu parecia ter sido acumulado em uma represa de esperança. No entanto, vê-la no dia anterior havia rachado todo muro da represa, pois a esperança de tê-la novamente se esvaiu como areia ao vento. Tudo ruiu, então as lágrimas acharam uma boa ideia se derramarem.
Não comi, não dormi, nem fui trabalhar. Me dei conta então, de que eu finalmente era um homem adulto. Por Deus! Tinha 25 anos, não podia me dar ao luxo de chorar como uma criança e ficar sem fazer nada até as coisas se ajeitarem. Eu havia perdido você, de fato havia, mas não podia permanecer daquele modo. Então, na manhã seguinte eu limpei o apartamento, juntei as caixas de pizza sob a cama e joguei fora, peguei as roupas sujas de baixo do tapete e levei à lavanderia.
Apenas não me desfiz das geleias, não, aquilo era demais. E eu era fraco e tolo como um alguém apaixonado sempre era.
Toda noite o telefone na sala tocava, mas eu sabia que era você então não atendia. Fiz a coisa mais madura a se fazer: abracei uma almofada e me sentei ao lado do telefone, deixando lágrimas rolarem com a vontade enorme que tinha de atender, sentido as pontadas na pele sempre que o toque soava, e pedindo silenciosamente para que parasse de tocar.
Até que um dia, meu desejo se realizou: o telefone não tocou.
Depois disso eu superei. Digo, jamais poderia superar você, porém consegui superar sua perda. Acho que um ano depois disso eu me casei. Sara era o nome dela e eu a conheci em um dia qualquer quando andava pelo parque onde antes andava com você. Ela tinha tropeçado — Sara tropeçava muito, então estava para nascer alguém tão atrapalhado quanto ela — e acabando por pisar em uma poça de água que encharcou seu salto alto preto. Ela sorriu quando eu a ajudei a se secar e o resto é uma história longa demais para ser contada em poucas palavras.
Nunca mais havia tido notícias suas. Sempre imaginava por onde estaria, se estaria bem. Logo então as imagens daquele rapaz de cabelos escuros com os braços sobre você me vinham em mente e espantavam esses pensamentos.
Descobri, dois anos mais tarde, que aquele rapaz que havia “roubado” você de mim era, na verdade, seu irmão Mitch. Eu naturalmente deveria me sentir idiota por isso, e admito logo que minha vontade era de correr de volta para você e largar tudo que eu tinha — amava Sara, jamais me casaria com alguém que não amasse de verdade, ela era uma esposa muito melhor do que eu merecia. Mas você era Amber, minha Amber, e saber que durante todo aquele tempo você foi minha atiçou no meu peito a enorme vontade de tê-la novamente.
No entanto, mais uma vez o mundo complicou as coisas.
Amber, você estava morta.
Morta.
Enterrada a sete palmos da superfície.
Foi por isso que parara de telefonar. Achei que houvesse desistido de mim, mas não, você havia morrido, morrido por mim, enquanto corria para uma rodoviária a fim de me visitar.
Um carro. Um baque. Sangue.
E enquanto isso, enquanto você morria em braços desconhecidos, eu estava abraçado a uma almofada esperando o telefone parar de tocar. Enquanto você ia ao hospital e te declaravam como morta, eu suspirava de alívio por notar que você não ligaria naquele dia e que eu não teria que sentir a dor da traição.
Amber, eu sou um monstro. Um terrível ser humano e uma pessoa idiota. Sempre fui idiota, e de alguma forma você decidiu que iria amar esse idiota, esse grande imbecil cinco anos mais velho.
Você não tem ideia do quanto eu me odiei, Amber. Apenas fui saber de sua morte 3 anos após a mesma, então você não tem ideia alguma de como me senti. Destruí meu casamento, pois Sara não aguentava me ver chegando bêbado todas as noites sem nem lhe dar boa noite. Até imagino-me no lugar dela, uma mulher linda, forte e de bom humor tendo que aturar um cara idiota que passava a manhã toda deitado lamentando a vida — e a morte —, que saía ao fim da tarde e só voltava no fim da madrugada totalmente bêbado com aquele maldito hálito de cachaça.
Foi quando ela desistiu que eu notei o que estava fazendo ali. Mais uma vez tive que dar meu jeito para ajeitar a situação, pois você não saía da minha cabeça, Amber, você continuava sendo tudo para mim e Sara era, mesmo que eu não quisesse admitir, o cimento barato com que tapei as rachaduras da represa. Isso foi cruel de minha parte, pois Sara era magnífica demais para ser tratada assim, então, quando ela se foi, acho que me senti bem por fazer algum feito bom em sua vida. Eu não merecia alguém tão bom quanto ela.
Mas sabe, eu não daria a mínima de ficar com você. Afinal, sempre fui egoísta.
Agora na atualidade, 20 anos após sua morte, eu estou sentado aqui, no seu túmulo com Peter. Venho aqui todo ano desde que... bem, você sabe — algo bem doentio de minha parte, já que você se foi há muito tempo —, acho que meu consciente considera isso um tipo de compensação por todos os meus erros passados.
Peter, meu filho, sempre está ao meu lado quando venho. Ele é um bom garoto e fará 10 anos mês que vem. E sim, eu me casei, mais uma vez. Mary foi um anjo de cabelos castanhos que surgiu na minha vida e me ajudou a sair daquele problema com as bebidas. Diria até que ela é mais forte do que Sara foi, pois não desistiu de mim mesmo eu sendo um pé no saco quando o assunto é você ou geleia de uva. Foi fácil construir uma família com Mary — ela não é você nem nunca será, mas com ela percebi que não preciso de mulher alguma igual a você para amá-la do mesmo modo. Você foi única, Amber, e nunca acharei nenhuma outra como você, mas Mary, Mary é tão única e tão valiosa quanto você um dia foi para mim.
Sabe, ela não tem seus olhos âmbar, nem sua fome insaciável por coisas de uva, mas é a melhor jogadora de pôquer da região e a pior cantora que o mundo já conheceu.
Bem, acho que devo dizer logo que este é o último ano que venho lhe visitar. Percebi há bem pouco tempo que preciso me soltar de você e creio que este seja um bom momento para dizer adeus — é setembro, mesmo mês em que te conheci —, então peguei caneta e papel e resolvi escrever um adeus bem longo, para tentar fazê-lo durar bastante tempo e para que, quem sabe, eu morra em um infarto antes de acabar. Mas bem, esse tempo é finito e até mesmo 12 páginas de um texto sobre nossa
história tem um fim — até porque nossa história não é lá muito longa — e parece que eu não vou ter um infarto antes de acabar isso, o que me dói a alma, porque a ideia de dizer adeus mais uma vez machuca muito.
Por que é tão difícil dizer adeus, Amber?
Por que é doloroso lembrar do gosto de uva em seus lábios?
Bem, não tenho muito mais o que dizer, então acho que acabo por aqui. Obrigado por tudo, meu amor, obrigado por todas as emoções que me permitiu sentir ao teu lado, obrigado pelas risadas, pelas conversas, pelos passeios e pelas geleias de uva.
Obrigado.
Obrigado por me dar a honra de olhar em seus olhos âmbar um dia.
***
Novamente, o texto acima foi mandado pela autora e não há nenhuma diferença entre este e o original.

A crítica construtiva foi feita por nossa avaliadora: Brenda Camões.
Não leve a mal nada do que for dito aqui, e se você sinceramente souber que vai reagir mal ao que lerá, por favor, não continue a leitura.
Crítica Construtiva: 
Logo que comecei a ler vi erros de concordância gravíssimos. Que nos confundem ao ler, o tipo de erro que você realmente nota e não passa despercebido por quem ler rápido demais. 
Quando comecei não sabia ao certo se era uma história na primeira ou na terceira pessoa, depois que eu confirmei que se tratava de uma carta, algo que no inicio tive dúvidas. 
Já deixei claro minha opinião quanto à gramática, o que foi um ponto fraco na história. Mas o enredo?! Pelos deuses!! Adorei a escrita em prosa, naquele continuo ritmo suave de pensamento/lembrança. A autora conseguiu contar uma história, que é uma carta, perfeitamente, não nos deixando em dúvida em nada! 
Qualquer um consegue entender de cada parte; E isso acabou tornando a escrita algo mais intimo, daquela que o leitor tem vontade de abraçar. 
Recomendo está história, os detalhes são algo que surpreenderia qualquer pessoa, são únicos. Sem contar o final! Tenho certeza que qualquer pessoa que ler vai gostar. 
Para o enredo dou 9. 
Escrita da autora 7. 
Gramática 6.
Minha nota final é 8.
***
Ah meu Deus, garota, o detalhe da uva vai ficar na minha mente para sempre! E o nome Amber também! Parabéns! - Louise.

Um comentário:

  1. ...
    Meu Deus, eu ganhei.
    Sinceramente, não sei se rio ou se choro com isso. De verdade, participei desse concurso só para ver se conseguia no mínimo o terceiro lugar e acabei conseguindo o primeiro? Kkkk para mim, que nunca ganhou nem um apito ou uma bala barata em nada, ter ganho o concurso parece mentira.
    Juro, sequer esperava ficar classificada! Tenho uma queda pela escrita da Katharynny e pensava que o primeiro lugar já era dela garantido.
    Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Ok, parei.
    Fico imensamente - em proporções tão grandes que nem sei que palavra usar - feliz por terem gostado da história e fico extremamente grata pelas dicas e críticas. Sempre tive esse problema de deixar as coisas um tanto confusas demais e peço desculpa por tais erros.
    Quanto ao prêmio de ser postadora do blog, peço sinceras desculpas em ter que recusar. Sei por experiência própria que não sirvo para isso. Sou bem pouco atarefada, no entanto sou incompetente e irresponsável, admito logo. Tentei trabalhar em um blog um tempo atrás, mas nunca sabia bem sobre o que escrever ou postar então ficava por fora um bom tempo até ter uma ideia e essa ausência sempre deixava o blog bem parado, então não pretendo atrapalhar novamente.
    Peço mesmo desculpas por isso.
    Obrigada por avaliarem a história para o concurso e obrigada também por proporcionar tal evento. Tenho certeza que foi gratificante para os outros participadores também - os quais as histórias lerei em breve.
    Até mais!

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