Apenas como comentário, está foi a história que nos cativou! - A todas nós. - por ser diferente e completamente viciante!
Número exato de palavras: 4.089
Pseudônimo da autora: Toph Bei Fong
Nome da História: Os Olhos de Amber
Os
Olhos de Amber
Quando a conheci você não passava de uma criança. Tinha
cabelos claros em tons de loiro e castanho, era pequena e de braços finos. Sempre
parecera muito frágil e suas madeixas claras e seus olhos caramelos apenas
aprimoravam a ideia de boneca. Você era uma boneca, de porcelana ou de vidro,
não sei ao certo a diferença pois era você quem gostava delas. Apenas lembro
que sua pele estava corada e seus cachos se presos com uma tiara azul. Naquele
dia de final de maio, você sorriu e andou na minha direção.
Nunca entendi bem o porquê.
Havia tanta gente em volta, apressadas, passeando. Havia
livros aos monte e estantes e estantes, mas de alguma forma você me enxergou
atrás do balcão e veio em minha direção, perguntando as horas e onde poderia
encontrar um segurança. Havia se perdido dos seus pais, me lembro bem, lembro
também que estava nervosa e que o segurança não notou o medo em seus olhos, mas
eu notei, e agora me pergunto como pude. Sempre fui desligado, lembra-se? Mas
de alguma forma você surgiu lá e me atraiu atenção, e creio que o motivo sempre
seja uma incógnita em minha existência.
O segurança a deixou no lado do balcão e foi até o auto
falante do lugar, informando a garota perdida, chamando o nome de seus pais e
esclarecendo sua localização. Isso pareceu ter acalmado você, e me acalmou
também, porque havia finalmente descoberto seu nome, que foi repetido três
vezes no auto falante da feira.
E Amber era um nome que lhe cabia bem, pois sempre fostes
como uma pedra preciosa, e seus cabelos claros sempre combinaram com teus olhos
cor de âmbar, logo, não conseguia imaginar nome mais belo para você. Amber era
perfeito, você era também.
Suas unhas já estavam todas ruídas por causa do sentimento
nervoso que aos poucos lhe consumia, então eu, tentando acalmá-la, puxei
conversa, e, graças à Deus — ou não — você curvou os lábios e me respondeu.
Acho que tinhas 12 naquela época. Sim, sim, definitivamente
tinha 12, então acho que eu tinha 16, perto aos 17. No entanto, ali ao seu lado
buscando distraí-la, senti-me bem mais velho do que realmente era, como um
adulto consolando uma irmã mais nova após sua boneca se quebrar — ou talvez eu
fosse a criança e tu fosses minha boneca, a diferença é que eu jamais
permitiria que se quebrasse.
Foi uma conversa bem curta, mas para mim havia sido o
suficiente. Seus pais chegaram um pouco depois de nossa conversa e o alívio
atravessou seu peito visivelmente. Tu viraste de costa para mim, acenou com um
sorriso doce inocente — agora penso no quanto gostaria de poder congelar esse
sorriso. Congelar e guardá-lo num lugar onde apenas eu teria acesso — e agarrou
firme ao peito sua sacola recheada de livros, caminhando e logo sumindo com
seus pais no meio das pessoas.
Aquele foi o primeiro contato. Ali, em meu pequeno emprego
vendendo livros e juntando dinheiro para faculdade. Ali, em uma comum convenção
literária.
Na segunda vez que a vi novamente, foi em uma terça-feira
fria, no fim de outono. Creio que tinha se passado pouco menos de três anos
desde nosso primeiro contato e, admito com pesar, que sequer me lembrava de ti,
assim como sabia que tu sequer lembrarias da minha face.
Estava em uma cafeteria no centro, tomando goles curtos de
um Expresso Macchiato, enquanto temperava o amargor com uma torta de chocolate
demasiada doce. Você entrou pela porta da frente e os sinos soaram, mas ninguém
parecia ter notado sua presença. Eu não notei, e sinto em dizer isso, mas
naquele dia e naquele momento estava muito ocupado e concentrado em minhas
breves provas do curso de literatura. Agora percebo que deveria mesmo ter
levantado o olhar e analisado aquele momento, estudado seu pedido e observado
seus passos.
No entanto só fui notá-la quando você estava de pé em frente
à minha mesa, perguntando se poderia sentar-se na cadeira desocupada à frente.
Aquele era um péssimo dia para encontrá-la uma segunda vez,
querida. Estava imprestável naquela manhã, com olheiras fundas e cinzas, o
cabelo por pentear, as roupas por passar e a cara de quem madrugou a noite
inteira e que nem mesmo três cafés expressos eram capazes de despertar. Mas
ainda assim, você não pareceu realmente ligar, sorriu e sentou na minha frente
com seu copo branco cheio de cappuccino, arrastando os dedos de unhas claras
para dentro da mochila e tirando de lá seu bloquinho de notas.
Sim, eu não lembrei de você quando a vi, realmente peço
desculpas por isso, mas Deus ou seja lá quem for sabe muito bem que minha
situação naquele momento não era das melhores. Você ainda era bela como sempre
foi, mesmo que até aquele dia só houvesse a visto uma vez. Seus cabelos
pareciam mais claros em seu loiro acastanhado, desta vez soltos e sem prendas,
sua pele estava mais com leves tons de bronze e seu rosto ainda tinha aqueles velhos
traços de boneca de vidro, tão frágil e quebrável, enquanto os óculos grandes
apoiavam-se em seu nariz adorável — você toda era adorável, digo logo.
E então, vi seus olhos — e eles me viram também — e aquele
velho tom de caramelo e avelã, uma cor indescritível, que logo mostrara-se cor
de âmbar com traços leves de dourado e verde. Seus olhos de âmbar, Amber.
Foi só ali que lhe reconheci — engraçado como seus olhos
eram a característica fixa na minha memória, tão belos que nem mesmo o
malicioso tempo ousou nublá-los. — e mesmo que sem querer um “Amber” fraco
escapou da minha boca como uma palavra de vida própria que achou uma boa ideia
escapar dos meus pensamentos. E quando disse seu nome você ergueu o rosto para
mim e perguntou de onde me conhecia.
Não tardei a dar sua resposta e só comentei sobre nosso
curto encontro, três anos atrás. Naquele dia você tinha 15 anos e havia
começado o ensino médio se bem me lembro, era tão jovem, minha querida, e acho
que eu também era, mesmo sem notar. Afinal eu não tinha muito mais que 18,
talvez 19 e estava apenas começando meu caminho rumo aos empregos e cursos.
Tu sorriste para mim e pareceu recordar-se, mesmo que
minimamente, daquele dia comum de maio e me cumprimentou mesmo não lembrando
meu nome. Bem, eu lembrava o seu, e acho que isso era o suficiente.
Depois de uma conversa um pouco mais longa do que nossa
última, você pôs uma nota pequena sobre a mesa e se despediu mais uma vez,
desta vez com um aperto de mão e um rápido abraço — ainda lembro do cheiro que
não parecia ser perfume. Era algo entre hidratante de uva e sabonete, não muito
descritível, apenas sei e recordo-me que era o cheiro do Éden, ou do que eu
gostaria que fosse.
E aquele fora o segundo contanto. Em uma cafeteria qualquer
do centro, enquanto eu me distraía em meio a tantos e tantos papéis do curso. E
cheiro, seu cheiro.
Depois disso as coisas foram mais depressa do que antes.
Passaram-se quatro anos, talvez cinco se a memória não falha. Cinco anos é um longo tempo para coisas
acontecerem: havia me formado e terminado meu curso de literatura, tinha 24
anos e agora já trabalhava em uma universidade popular e comum.
É tão estranho, mas as memórias são bem vivas a respeito
daquele dia.
Era setembro, começo de aulas, dia 6, ano de 1994, entrei na
sala e cumprimentei meus novos alunos, joguei minha bolsa sobre uma cadeira
próxima e bati as mãos em uma palma silenciosa, apresentando meu nome e minha
matéria.
Você estava sentada não muito atrás e olhava atentamente
para mim, acho que havia me reconhecido — ou espero que sim, afinal sua memória
sempre foi bem melhor que a minha —, mas havia tantos rostos ali, que admito
mais uma vez com um pesar grande no peito, que não enxerguei você, escondida em
seu casaco marrom e com seus belos olhos escondidos por trás de uma armação de
óculos.
Noto agora como em todas as vezes você passava despercebida
por mim, incrível isso, mas acho que é algo humano, nunca enxergamos no
ambiente o que realmente importa.
E tu importavas para mim mais do que qualquer coisa no
mundo, você era meu mundo, era meu bálsamo, minha perdição, minha bela boneca e
minha pedra preciosa de âmbar.
As coisas seguiram mais em ordem depois disso: você me
cumprimentou após a aula com seu sorriso doce de sempre, estava mais adulta,
mais alta e ainda mais bela. Seus olhos naquele tom tão indescritível e belo
continuavam brilhosos e vivos — embora aquelas costumeiras olheiras de
estudante houvessem se acomodado sob eles. Lembrei-me então do nosso segundo
encontro, cinco anos atrás, em que me encontrava na mesma situação estudantil
que você — e os cabelos presos em um rabo de cavalo mal feito e desarrumado ao
ponto de parecer feio em uma pessoa normal, mas não em você.
Naquela época nunca imaginaria o quanto aquele dia seria
importante, sempre fui tão desatento, que quando me dei conta estava em uma
cadeira provando vários sabores de diferentes tortas com você, porque você as
adorava assim como adorava café, assim como amava o cheiro e o sabor de uva.
Uva, nunca compreendi sua obsessão pela fruta. Seu
hidratante era de uva, sua geladeira era lotada de sucos de uva de garrafa e
caixa, suas prateleiras se preenchiam por geleia de uva, suas unhas tinham
desenho de uva — e se me lembro bem, você possuía uma camisa branca com um cacho
de uvas roxas — e você simplesmente delirava em uma torta com recheio de uva.
Acho que se eu lhe desse um caminhão de uvas, você se
casaria comigo mesmo sem me conhecer.
Talvez devesse ter feito isso mesmo.
Fora uma conversa divertida e agradável. Você, assim como
eu, gostava de ler — talvez não tanto quanto eu, mas conhecia suficientemente
bem um pouco de tudo — e isso nos rendeu grandes discussões e debates que
sempre terminavam em risadas e altos níveis de intimidade.
Acabamos por todo dia sair juntos da universidade. Todos os
dias durante os quatro meses que se seguiram, e não demorou muito até o melhor
de tudo acontecer.
Nesse dia resolvemos andar ao parque e tu decidiste correr
por entre as folhas vermelhas que preenchiam o chão. Acho que naquela época já
havia me tocado o quão apaixonado eu estava por você, pois corri atrás de ti
também e consegui derrubá-la no chão. Caímos juntos na grama seca, você sorria,
eu sorria, então tu resolveste inclinar-se para o lado e tocar meus lábios com
os teus.
Aquela realmente havia sido a melhor sensação de todas,
aliás, teus lábios não eram macios como descrevem os livros, era pele, carne,
tudo com um leve sabor de uva — e tudo
era maravilhoso, pois você era maravilhosa e as voltas e revoltas que
provocavas em meu estômago eram maravilhosas — e adocicado pelo tom doce de seu
belo par de olhos.
Deus, você era linda! Nunca um dia cansarei de repetir isso,
jamais. Você era linda, linda em todos os aspectos mesmo que apenas fosse tão
bela aos meus olhos. Eu estava apaixonado, loucamente insano por você — não
pela sua beleza dourada, lhe garanto logo, eu amava tudo em você, todo mínimo e
ínfimo detalhe, cada traço, cada curva, cada beijo ou toque. Você era tudo, era
um mar de sensações berrando por liberdade, era paz, era lazer.
No entanto não era ar, e eu não podia respirá-la para
sempre. Às vezes paro para pensar e noto que você talvez seja um veneno
radioativo ou uma droga alucinante e viciosa. Pois eu estava viciado em você e
aquilo estava mesmo me fazendo mal, talvez se continuasse a viver tanto âmbar
teria perdido meu emprego — havia ficado muito aéreo e acho que cumpria meu
trabalho direito —. E até hoje não sei se o que se seguiu foi certo ou errado,
mas sei que ficamos juntos e que nos amamos por longos 7 meses, até percebemos
que os nossos caminhos haviam traçado um rumo de linhas tortas maldosas.
Então nos separamos mais uma vez, desta vez com uma
despedida mais apropriada. Ainda hoje acho que sinto o gosto dos seus lábios
quando você puxou o colarinho de meu sobretudo e afundou sua boca com gloss de
uva na minha. Acho que beijos de despedida conseguem ficar mais presos à
memória do que os beijos eventuais, e aquele beijo, marcou-me como um ferro
quente marca um cavalo, e, assim como o cavalo, seu beijo marcou em mim a
tatuagem invisível de pertence — passei a pertencer a você, mas acho que
realmente já pertencia a muito tempo.
Não sei como não chorei naquele dia, talvez estivesse com
orgulho do seu sucesso ou com demasiada tristeza me assolando, mas não derramei
lágrima alguma quando você entrou no trem e partiu. Tenho certeza que você se
lembra que eu corri atrás do trem perto da janela em que você estava, e corri,
corri e corri um pouco mais, no entanto o trem já estava muito rápido e não deu
mais, então parei.
Parei.
Parei.
Parei, mesmo. Os meses passavam lentos, as horas eram
sonolentas e os minutos atrasados. Percebi que a sensação era de que o tempo
havia parado, de fato. Talvez houvesse mesmo, ou talvez sempre estivesse parado
e só fui notar naquela hora. A rotina me matava aos poucos, e eu ainda era tão
novo, certamente não deveria morrer assim — mas tudo permanecia frio e sem cor,
um tanto dramático demais e com uma grande dose de melancolia. A verdade era
que sua falta era sentida em todos os lugares, a cafeteria era seca e sem
diversão, o parque parecia silencioso e pouco agitado, a sala de aula parecia
estar aberta em vácuo de palavras, como se o lugar onde você sentava, agora
vazio, fosse um grande buraco negro de tão notável.
Sentia falta do seu calor na minha cama, nos fins de semana
quando você resolvia dormir lá em casa, naquele apartamento apertado e
bagunçado — havia muitas caixas de pizza sob a cama e roupas sujas sob o
tapete, e lembro-me que quem as pôs ali fora você, já que “o lugar estava arrumado
demais para o apartamento de um homem solteiro”, então lhe disse que já não era
mais um homem solteiro e você sorriu, fechou a porta e me empurrou na cama —
Havia também muitos potes de geleia de uva na geladeira, pois você fez o favor
de enchê-la de coisas sabor uva.
E as geleias ainda estão lá, acho, pois você conseguiu de
forma inacreditável me fazer enjoar da fruta, então todos aqueles potes doces
permaneceram intactos, como uma lembrança viva do gosto de sua boca e do seu
amor por uvas, pois eu era tolo demais para jogá-las fora.
Então um dia, acho que em novembro de 95’, eu decidi que era
hora de te ver. Estávamos a quatro meses separados pela distância e eu já não
aguentava mais tudo isso, apenas nossas conversas a noite pelo telefone não
bastavam. Precisa de você, de sentir seu toque, seu calor, precisava ver seus
olhos e beijar seus lábios.
As lembranças eram fortes e você estava em tudo. Minha
geladeira estava cheia de geleia de uva. E
você estava em tudo.
Então parti em direção a Nova York e peguei um táxi até o
lugar onde você fazia seu curso para jornalismo. Acho que tentei muito apagar a
imagem que vi naquele dia. Acho que tentei tanto, que cada vez que tentava
apagar, mais nítida a imagem se tornava, mais viva, com mais cores e mais resolução.
Era você, Amber. Minha Amber. Minha Amber abraçada a outro
cara. E você estava feliz, tão feliz quanto estava quando saíamos após as
aulas. Minha Amber dos cabelos loiros escuros, minha Amber dos olhos cor de
âmbar. Minha.
E então, percebi que o minha
era uma palavra inexistente — e me lembrei que havia dito que nunca
deixaria você se quebrar, pois você era minha bela boneca. No entanto, acabei
por fazer ainda pior, não te quebrei, mas acabei te perdendo em algum lugar no
passado.
Naquele dia eu sequer falei com você, a visão que tive de
longe, com seu sorriso e o braço masculino sobre seus ombros foi tudo o que
bastou. Eu apenas girei os calcanhares e voltei pelo mesmo percurso até achar
um táxi e voltar para o mesmo lugar de antes — aquele velho apartamento que
ainda tinha seu perfume e ainda tinha vestígios do que antes foi meu.
Me lembro que me joguei na cama e não me levantei até o
amanhecer do outro dia, quando acordei tinha olhos vermelhos e marcas de choro
sob os olhos — todo choro que suportei quando você partiu parecia ter sido
acumulado em uma represa de esperança. No entanto, vê-la no dia anterior havia
rachado todo muro da represa, pois a esperança de tê-la novamente se esvaiu
como areia ao vento. Tudo ruiu, então as lágrimas acharam uma boa ideia se
derramarem.
Não comi, não dormi, nem fui trabalhar. Me dei conta então,
de que eu finalmente era um homem adulto. Por Deus! Tinha 25 anos, não podia me
dar ao luxo de chorar como uma criança e ficar sem fazer nada até as coisas se
ajeitarem. Eu havia perdido você, de fato havia, mas não podia permanecer
daquele modo. Então, na manhã seguinte eu limpei o apartamento, juntei as
caixas de pizza sob a cama e joguei fora, peguei as roupas sujas de baixo do
tapete e levei à lavanderia.
Apenas não me desfiz das geleias, não, aquilo era demais. E
eu era fraco e tolo como um alguém apaixonado sempre era.
Toda noite o telefone na sala tocava, mas eu sabia que era
você então não atendia. Fiz a coisa mais madura a se fazer: abracei uma
almofada e me sentei ao lado do telefone, deixando lágrimas rolarem com a vontade
enorme que tinha de atender, sentido as pontadas na pele sempre que o toque
soava, e pedindo silenciosamente para que parasse de tocar.
Até que um dia, meu desejo se realizou: o telefone não tocou.
Depois disso eu superei. Digo, jamais poderia superar você, porém consegui superar sua perda.
Acho que um ano depois disso eu me casei. Sara era o nome dela e eu a conheci
em um dia qualquer quando andava pelo parque onde antes andava com você. Ela tinha
tropeçado — Sara tropeçava muito, então estava para nascer alguém tão
atrapalhado quanto ela — e acabando por pisar em uma poça de água que encharcou
seu salto alto preto. Ela sorriu quando eu a ajudei a se secar e o resto é uma
história longa demais para ser contada em poucas palavras.
Nunca mais havia tido notícias suas. Sempre imaginava por
onde estaria, se estaria bem. Logo então as imagens daquele rapaz de cabelos
escuros com os braços sobre você me vinham em mente e espantavam esses
pensamentos.
Descobri, dois anos mais tarde, que aquele rapaz que havia
“roubado” você de mim era, na verdade, seu irmão Mitch. Eu naturalmente deveria
me sentir idiota por isso, e admito logo que minha vontade era de correr de
volta para você e largar tudo que eu tinha — amava Sara, jamais me casaria com
alguém que não amasse de verdade, ela era uma esposa muito melhor do que eu
merecia. Mas você era Amber, minha Amber, e saber que durante todo aquele tempo
você foi minha atiçou no meu peito a enorme vontade de tê-la novamente.
No entanto, mais uma vez o mundo complicou as coisas.
Amber, você estava morta.
Morta.
Enterrada a sete palmos da superfície.
Foi por isso que parara de telefonar. Achei que houvesse
desistido de mim, mas não, você havia morrido, morrido por mim, enquanto corria
para uma rodoviária a fim de me visitar.
Um carro. Um baque. Sangue.
E enquanto isso, enquanto você morria em braços
desconhecidos, eu estava abraçado a uma almofada esperando o telefone parar de tocar.
Enquanto você ia ao hospital e te declaravam como morta, eu suspirava de alívio
por notar que você não ligaria naquele dia e que eu não teria que sentir a dor
da traição.
Amber, eu sou um monstro. Um terrível ser humano e uma
pessoa idiota. Sempre fui idiota, e de alguma forma você decidiu que iria amar
esse idiota, esse grande imbecil cinco anos mais velho.
Você não tem ideia do quanto eu me odiei, Amber. Apenas fui
saber de sua morte 3 anos após a mesma, então você não tem ideia alguma de como
me senti. Destruí meu casamento, pois Sara não aguentava me ver chegando bêbado
todas as noites sem nem lhe dar boa noite. Até imagino-me no lugar dela, uma
mulher linda, forte e de bom humor tendo que aturar um cara idiota que passava
a manhã toda deitado lamentando a vida — e a morte —, que saía ao fim da tarde
e só voltava no fim da madrugada totalmente bêbado com aquele maldito hálito de
cachaça.
Foi quando ela desistiu que eu notei o que estava fazendo
ali. Mais uma vez tive que dar meu jeito para ajeitar a situação, pois você não
saía da minha cabeça, Amber, você continuava sendo tudo para mim e Sara era,
mesmo que eu não quisesse admitir, o cimento barato com que tapei as rachaduras
da represa. Isso foi cruel de minha parte, pois Sara era magnífica demais para
ser tratada assim, então, quando ela se foi, acho que me senti bem por fazer algum
feito bom em sua vida. Eu não merecia alguém tão bom quanto ela.
Mas sabe, eu não daria a mínima de ficar com você. Afinal,
sempre fui egoísta.
Agora na atualidade, 20 anos após sua morte, eu estou
sentado aqui, no seu túmulo com Peter. Venho aqui todo ano desde que... bem,
você sabe — algo bem doentio de minha parte, já que você se foi há muito tempo
—, acho que meu consciente considera isso um tipo de compensação por todos os
meus erros passados.
Peter, meu filho, sempre está ao meu lado quando venho. Ele
é um bom garoto e fará 10 anos mês que vem. E sim, eu me casei, mais uma vez.
Mary foi um anjo de cabelos castanhos que surgiu na minha vida e me ajudou a sair
daquele problema com as bebidas. Diria até que ela é mais forte do que Sara
foi, pois não desistiu de mim mesmo eu sendo um pé no saco quando o assunto é
você ou geleia de uva. Foi fácil construir uma família com Mary — ela não é
você nem nunca será, mas com ela percebi que não preciso de mulher alguma igual
a você para amá-la do mesmo modo. Você foi única, Amber, e nunca acharei
nenhuma outra como você, mas Mary, Mary é tão única e tão valiosa quanto você
um dia foi para mim.
Sabe, ela não tem seus olhos âmbar, nem sua fome insaciável
por coisas de uva, mas é a melhor jogadora de pôquer da região e a pior cantora
que o mundo já conheceu.
Bem, acho que devo dizer logo que este é o último ano que
venho lhe visitar. Percebi há bem pouco tempo que preciso me soltar de você e
creio que este seja um bom momento para dizer adeus — é setembro, mesmo mês em
que te conheci —, então peguei caneta e papel e resolvi escrever um adeus bem
longo, para tentar fazê-lo durar bastante tempo e para que, quem sabe, eu morra
em um infarto antes de acabar. Mas bem, esse tempo é finito e até mesmo 12
páginas de um texto sobre nossa
história tem um fim — até porque nossa história
não é lá muito longa — e parece que eu não vou ter um infarto antes de acabar
isso, o que me dói a alma, porque a ideia de dizer adeus mais uma vez machuca
muito.
Por que é tão difícil dizer adeus, Amber?
Por que é doloroso lembrar do gosto de uva em seus lábios?
Bem, não tenho muito mais o que dizer, então acho que acabo
por aqui. Obrigado por tudo, meu amor, obrigado por todas as emoções que me
permitiu sentir ao teu lado, obrigado pelas risadas, pelas conversas, pelos
passeios e pelas geleias de uva.
Obrigado.
Obrigado por me dar a honra de olhar em seus olhos âmbar um
dia.
***
Novamente, o texto acima foi mandado pela autora e não há nenhuma diferença entre este e o original.
A crítica construtiva foi feita por nossa avaliadora: Brenda Camões.
Não
leve a mal nada do que for dito aqui, e se você sinceramente souber
que vai reagir mal ao que lerá, por favor, não continue a leitura.
Crítica Construtiva:
Logo que comecei a ler vi erros de concordância gravíssimos. Que nos
confundem ao ler, o tipo de erro que você realmente nota e não passa
despercebido por quem ler rápido demais.
Quando comecei não sabia ao
certo se era uma história na primeira ou na terceira pessoa, depois que
eu confirmei que se tratava de uma carta, algo que no inicio tive
dúvidas.
Já deixei claro minha opinião quanto à gramática, o que foi um ponto
fraco na história.
Mas o enredo?! Pelos deuses!! Adorei a escrita em prosa, naquele
continuo ritmo suave de pensamento/lembrança. A autora conseguiu contar
uma história, que é uma carta, perfeitamente, não nos deixando em dúvida
em nada!
Qualquer um consegue entender de cada parte; E isso acabou
tornando a escrita algo mais intimo, daquela que o leitor tem vontade de
abraçar.
Recomendo está história, os detalhes são algo que surpreenderia qualquer
pessoa, são únicos. Sem contar o final! Tenho certeza que qualquer
pessoa que ler vai gostar.
Para o enredo dou 9.
Escrita da autora 7.
Gramática 6.
Minha nota final é 8.
***
Ah meu Deus, garota, o detalhe da uva vai ficar na minha mente para sempre! E o nome Amber também! Parabéns! - Louise.




...
ResponderExcluirMeu Deus, eu ganhei.
Sinceramente, não sei se rio ou se choro com isso. De verdade, participei desse concurso só para ver se conseguia no mínimo o terceiro lugar e acabei conseguindo o primeiro? Kkkk para mim, que nunca ganhou nem um apito ou uma bala barata em nada, ter ganho o concurso parece mentira.
Juro, sequer esperava ficar classificada! Tenho uma queda pela escrita da Katharynny e pensava que o primeiro lugar já era dela garantido.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Ok, parei.
Fico imensamente - em proporções tão grandes que nem sei que palavra usar - feliz por terem gostado da história e fico extremamente grata pelas dicas e críticas. Sempre tive esse problema de deixar as coisas um tanto confusas demais e peço desculpa por tais erros.
Quanto ao prêmio de ser postadora do blog, peço sinceras desculpas em ter que recusar. Sei por experiência própria que não sirvo para isso. Sou bem pouco atarefada, no entanto sou incompetente e irresponsável, admito logo. Tentei trabalhar em um blog um tempo atrás, mas nunca sabia bem sobre o que escrever ou postar então ficava por fora um bom tempo até ter uma ideia e essa ausência sempre deixava o blog bem parado, então não pretendo atrapalhar novamente.
Peço mesmo desculpas por isso.
Obrigada por avaliarem a história para o concurso e obrigada também por proporcionar tal evento. Tenho certeza que foi gratificante para os outros participadores também - os quais as histórias lerei em breve.
Até mais!